sobre dona dilça, amor e "tapaués"




dia raro para se voltar a escrever. a lua míngua vazia em libra. é vinda essa tristeza, que vem e vai em mim.

e dia comum... bem como é de todo dia raro: ainda pela madrugada, um amor do passado, como o amor fosse “coisa” que passasse, teve um pesadelo e eu pude sentir. por algum mistério, estávamos muito perto, um do outro, ruas e quadras, algumas apenas, pro tamanho que tem são paulo... e eu acordei pensando em como é difícil estar atento e pronto. e em quanto algumas dádivas escancaradas pouco podem ante às desconfianças e às dores de tanta gente, nesse mundo... na rodoviária, revi por vezes a facilidade de se gerar um mal-estar entre os seres, mais precisamente: pessoas... já em campinas, almocei carneiro, com meu pai... e em uma confusão de datas, entrei às pressas, e mesmo por destino, no conselho local de saúde do meu bairro... entre isso e o almoço, essa lua, me fez dormir.

e seria natural que algo desse dia me trouxesse até esse texto e a essa retomada. mas, não... e, de certo modo, há de fato muito sobre o tempo, e sua falta, nessa escrita. a dificuldade que é ter as coisas em dia... nesses dias raros.

faz pouco tempo, eu conheci dona dilça. era baiana. grande, negra e linda. e aqui, eu preciso agregar um detalhe importante: nessa vida, em muitas ocasiões, que vão de sonhos, dormindo em casa, a experiências xamânicas no topo de uma montanha aos arredores do vale sagrado no perú... eu me vi acompanhado por várias mulheres grandes, negras e lindas... e vestidas de branco, como nessa imagem de baiana, que há, pelo menos em meu imaginário...

e, bom, dona dilça não vestia branco. mas em todo o mais, era isso... forte, mãe; tudo. uma matriarca verdadeira. e cheia de amor... destaco o efeito de seu olhar aliado ao sorriso. imensos... estive em sua casa uma vez e nos encontramos por outras, quase sempre, eu a caminho de trabalhos com crianças e adolescentes, da nossa zona leste de sampa. ela sempre me levava um lanche... mais do que o pão, a bisnaguinha, com margarina ou mortadela, o danoninho ou o leite fermentado e o bolo, de laranja ou de fubá, seu carinho era o sustento... seu abraço e a benção me alimentavam muito. e disso, muito da sustância com que eu chegava para trabalhar com aquela gente. e era tudo tão gratuito...

na penúltima vez que a vi, os pedaços do bolo, de fubá, vieram naqueles potinhos, que, com minhas mãe e vó, aprendi a chamar de “tapaué”. também com minhas mãe e vó, aprendi que “a 'tapaué' nunca deve voltar vazia”... e acabou que ali, a correria tanta, eu a acabei devolvendo assim, no dia seguinte, mas com a promessa de trazer, pro próximo encontro, alguns biscoitinhos, que sei fazer.

mas, deus de ser, aquela foi a última vez que a vi...

eu ainda tive outra chance de trazer os biscoitos, pra que chegassem a ela, mesmo que não pelas minhas mãos, mas, pela mesma correria de antes, outra vez, não o fiz. e dona dilça se foi dias depois disso, dias atrás, num infarto fulminante.

é. tudo míngua nessa vida. e nem sempre, os fenômenos são visivelmente tão graduais, como com a lua. e mesmo com a lua tudo sendo tão gradual, nem sempre se vê, aliás.

há um mistério nesses súbitos. e há o mistério desse nosso errar humano...

como seja, é preciso seguir... errar e errar...

ainda com a lua minguando, vazia, em libra. é preciso seguir...

dos biscoitos: me resta fazê-los assim mesmo e, além de deixar com a linda família que dona dilça deixa aqui, dá-los às pessoas, por aí, num dia comum dedicado a isso, apenas; de hoje: me resta voltar a escrever, ainda mesmo com toda a correria...

e dona dilça, que certamente já está por aí, toda de branco, encaminhando pessoas como eu, nesse mundo, por seus sonhos e experiências, pelo amor: seus “tapaués” de carinho... esses nunca voltaram vazios e, eu juro, que nunca irão voltar.






doamor... #14




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doamor... #13



o amor é: crê! sente?








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                                                          o amor é às vezes só.
                                                          e sempre com
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doamor... #11












amar é ser tão

sobre beta, leveza e limão




já já aqui... mais aléns,

sobre beta, leveza e limão = )



doamor... #10



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