o carteiro e o poetante



há um poeta... ou não... que, todo dia... ou quase... bebe uma cerveja... ou duas... num boteco de seu bairro...

esse boteco é o bar do manoel. e o poeta fica ali, sentado... à mesa, balcão, calçada... escrevendo, fazendo nada... ou tudo... todo... o poeta fica ali... fazendo estar...

e há dias em que o poeta ainda aproveita e fica pra almoçar. o prato feito... daqueles que se costuma chamar 'de pedreiro'... vem bem a calhar com a fome de sua vida em obras.

há muita gente que também passa por ali, nessas horas de poesia... o bicheiro, o entregador de gás, as testemunhas de jeová – embora estas nunca entrem –, o mendigo, o advogado, a moça que compra chicletes antes de voltar pro trabalho, o joão de deus... com seus sapatos engraxados, seus chapéus sazonais, seus noventa e tantos anos nas costas – ainda muito bem postas –, e suas medalhinhas de santo e de bocha no peito, cheio de fé e orgulho... a elisa... que é batizada eliseu, mas... a vida se faz mesmo vivendo... o bica... com sua esquizofrenia simpática, seu coturno, seu colete e suas letras muito doidas de rap – que o poeta adora –, o tio bahia, com suas mãos sempre sujas de graxa, a dona antônia, que vem cobrar o aluguel... e paparicar o carlinhos que, sem saber, a fez redescobrir o gostinho bom e angustiante da paixão... os filhos da cleide, que amam paçoca, cocada e sorvete de milho... e o carteiro.

o carteiro sempre passa por lá. gosta de suco de caju gelado... ou bem gelado... depende do calor. pede sempre também pra deixar ali, uma parte das cartas – aquelas que apenas serão entregues depois –, e assim, vai mais leve pelos arredores do bar...

entra e manoel vai logo enchendo o copão de suco... bom dia, seo manoel! bom dia! tá quente hoje, né? enche o copo de gelo. custa um real, mas manoel nunca deixa o carteiro pagar...

o carteiro e manoel cultivaram já uma boa coleguice! o carteiro, como muitos ali, quer muito bem a esse simpático dono de bar! e manoel, por sua vez, respeita muito o ofício do carteiro! tudo bem que hoje quase tudo é conta, dívida e propaganda. mas guarda ainda os encantos da infância, no sertão da bahia... quando o mundo chegava ali, chegava mesmo era pelas mãos dele, o carteiro. era ele quem, valente e bondoso, surgia do meio da poeira e das distorções no ar, causadas pelo sol implacável a castigar a caatinga, trazendo notícias das pessoas queridas e das coisas de lá...

o poeta também ama ao carteiro. ele não tem nem endereço... é um errante giramundo. e não tem mesmo nada em seu nome... não recebe contas, nem dívidas, nem propagandas... mas guarda caixas e caixas de cartas trocadas desde a infância! cartas que traziam mundos inteiros pra dentro do seu... mundos que vinham parar na sua casa! e que traziam pessoas queridas e coisas de lá, de todos os cantos, pra si! ...lembra mesmo dos dias em que esperava ansioso pelo carteiro, sentado no passeio, bem em frente ao portão... 

respeita muito o carteiro... sabe que ele não tem por ofício entregar apenas contas e dívidas e propagandas... o carteiro, antes, tem o labor de vínculo... a sina de ponte... dos fazeres mais lindos que há! – pelo menos, para o olhar do poeta. tanto, que é a isso que esse se dedica. e sonha mesmo com o dia em que o carteiro entregará bem menos contas, dívidas e propagandas às pessoas... que fetiches, encantos, brincadeiras, caprichos e surpresas... em muitas mais cartas de amor, de amizade, viagens e saudades...

o carteiro também já sabe do poeta. reparava nele sempre... sua pessoa em si, até que lh’era bem discreta, mas... e aquele cabelo, cada vez outro e invariavelmente despenteado? e aquela barba, às vezes imensa, às vezes apenas cheia, rarissimamente feita, tantas vezes por fazer e por vezes, ainda, em formas nada nada corriqueiras? e aquelas calças, que muitos juram ser pijamas? e aquela outra, que parece uma saia? ah! mas, e aquela... que é mesmo uma saia? e seus chinelos, tênis, sandálias? e quando vem mesmo descalço? e essas camisetas coloridas todas? essas flores... estampas... listras e xadrezes em tudo?

... mas, o que mais o intrigava era: e afinal, por que ele escreve tanto?

seriam aquelas coisas todas cartas? tinha mesmo uma imensa curiosidade em saber... e foi assim que um dia, quando já saía, leve e refrescado do bar, parou e perguntou. isso aí, são cartas? não... sorriso ...é só poesia! ah! o senhor, então, é poeta? não... sorrisos ...não sou senhor, não senhor! nem sou poeta... é só poesia! o carteiro sorriu... e o que faz com toda essa poesia? vivo. vivo-a comigo... e com-vivo-a com quem quiser... outras pessoas? sim! outras pessoas, outras árvores, outros pássaros... o poeta parou um pouco a cara de estranhamento do carteiro se intensificava rapidamente: ...mas, é... em síntese: pessoas! e como? por cartas? às vezes... menos até que eu gostaria... o senhor tem livro? não. não sou senhor... sorriso ...e também não tenho livro. ué... mas então, como é que a poesia vai pras pessoas? o poeta sabia que não sabia responder àquela pergunta... aliás, linda pergunta... mas, dissimulou... internet! sabe? ah, sei! cê tem e-mail, né!? tenho! mas a poesia não vai por ele... não? bem, até vai... às vezes... como com as cartas... mas... bem... olhe... é assim: eu tenho lá, na internet, um espaço, um cantinho, que tem um endereço, como as casas daqui, e quem estiver pela internet e quiser, sabendo do endereço, por acaso ou de repente, pode ir pra lá! ...e é lá que também está a poesia! o carteiro ainda não sabe se está entendendo... ...e qualquer pessoa pode ir lá? qualquer uma! que estiver na internet! mesmo que for uma internet de longe? sim... sorriso... até se for uma internet de outro país? risos ...até se for! e... vem muita gente? vem gente! algumas me escrevem de volta, deixam recados, às vezes... volta e meia alguém vem e diz que veio... e, assim, a partilha segue. já outras, vêm e vão sem dizer nada... mas a partilha também pode acontecer... assim mesmo. mas como dá pra saber? ...talvez não dê... mas parece que essas idas e vindas na internet deixam marcas... e, por causa delas, dá pra se ir atrás de pistas e dicas sobre as visitas que acontecem por lá... é mesmo? é mesmo!... cê tem pistas de muita gente! sorrisos ...de algumas! é famoso? risos ...não! vem gente de longe? vem sim! de outro país? sim! do paraná? muitos risos ...é... às vezes vem gente até do paraná! nossa! e demora? pra quê? pra ir, pra chegar... aonde? na poesia! o poeta sabia que essa era outra pergunta linda e sem resposta... mas outra vez, dissimulou... não, não! a internet pra algumas pessoas é mais rápida, pra outras, mais lenta... mas não costuma demorar pra chegar lá! ...eu chamo lá de 'vida em obras'! ...'obras' de construção? essa mesmo! ...e, às vezes, de desconstrução também! ...como assim? é quase como se uma palavra às vezes fosse um tijolinho, às vezes fosse cimento...e às vezes fosse marreta! silêncio ...qual o lugar mais longe? do mundo? ou de onde já veio visita? visita. do japão! o lugar mais longe do mundo! ...pra gente aqui no brasil! outro silêncio. o carteiro parecia estar agora em uma longuíssima viagem... ...o senhor já entregou alguma carta vinda do japão? ...eu também não sou senhor, não, seo poeta! e nunca entreguei, não! deve vir pouca, né? deve demorar muito também! e hoje já tem essa internet, esse e-mail aí, né? sorrisos... e silêncio ...mas ó, desculpa incomodar, viu? vô lá, que tem bastante carta pra entregar hoje! incômodo nenhum, visse? no próximo encontro a gente toma um suco de caju, juntos, lá no balcão, c'o mané! ah, já viu, né? nesse calorão! pois, é! vai bem, não vai!? vai sim! e assim, a gente aproveita e segue com essa conversa boa! opa! beleza! sorriso ...então tá, seo poeta... boa poesia aí, heim! e té mais! sorrisos ...eita! pra você também!... aliás, pra nós todos... . e gratidões de cá, seo carteiro! até...!

...

e assim o poeta teve a idéia de deixar em seu endereço, lá no cantinho que tem, na internet, o endereço desse mesmo bar do manoel... pra, quem sabe, virem cartas e postais... do mundo todo... com mensagens e imagens, das pessoas queridas e das coisas de lá... cartas e postas que, talvez, até tragam pessoas dizendo das coisas que o poeta não soube responder... nem ao carteiro, nem a si mesmo... coisas como: até onde vai a poesia... como é que a poesia chega pras pessoas... como é que ela volta... e, nesses casos, por quê é que ela tem vontade de voltar...


bar do manoel

av. lafayte arruda camargo, 767    jardim santana 
cep 13088-540   campinas - sp                  brasil


pra que o carteiro... que deixa as cartas de outras vizinhanças por lá, pra aliviar a jornada... e toma suco de caju gelado, pra refrescar do calor... tenha, quiçá, uma primeira postagem do japão, para entregar por aqui! cartas e postais que tragam fetiches, encantos, brincadeiras, caprichos e surpresas de diferentes partes do mundo! cartas e postais que tragam mundos... talvez, de partes antes jamais ouvidas e escutadas! postagens que venham de todas as partes, lonjuras e distâncias... quem sabe até... alguma do paraná!


se remetidas ao poeta, basta, em uma notinha, pedir ao manoel que as entregue!


... e ele certamente transmitirá cada recado! ao carteiro, ao manoel, ao joão de deus, ao bica, aos filhos da cleide, à elisa e ao pessoal todo... até por que... o poeta... vive... mesmo... da e à partilha... ... ...





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